Quaresma: mais que tradição, um caminho real de renovação do coração

Quaresma mais que tradição, um caminho real de renovação do coração

Seminarista Giovanni

A Quaresma é o tempo litúrgico de quarenta dias que prepara a Igreja para a Páscoa, iniciando-se na Quarta-Feira de Cinzas e estendendo-se até a Missa da Ceia do Senhor. Mais do que práticas externas, é um itinerário de conversão e renovação da vida à luz do mistério pascal de Cristo.

O número quarenta, de forte significado bíblico, recorda os quarenta dias do dilúvio, os quarenta anos de Israel no deserto e, sobretudo, os quarenta dias que Jesus passou em oração e jejum antes de iniciar sua missão pública, conforme narra o Evangelho de Mateus (4,1-11). Por isso, a Quaresma é um tempo de deserto.

A Quarta-Feira de Cinzas é o ponto de partida do nosso caminho quaresmal. Ao recebermos as cinzas, reconhecemos nossa fragilidade e nossa necessidade de conversão. A Igreja nos conduz ao deserto com Jesus, recordando-nos a experiência narrada no Evangelho de Mateus (4,1-11), onde Cristo enfrenta as tentações antes de iniciar sua missão pública.

Durante quarenta dias, somos chamados a fazer esse mesmo percurso interior: sair da dispersão, silenciar os ruídos e permitir que Deus trabalhe o nosso coração.

A tradição cristã, inspirada também pela Primeira Carta de São João (1Jo 2,16), nos fala de três inclinações desordenadas que permanecem em nós após o pecado original: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da vida. Não se trata do pecado em si, mas da tendência que nos arrasta para longe de Deus.

A Quaresma é o tempo propício para enfrentarmos esses males com os remédios que o próprio Senhor nos oferece.

A concupiscência da carne manifesta-se como desejo desordenado de prazer, busca excessiva de conforto, preguiça, gula, vícios e sensualidade. É quando o prazer fala mais alto que o propósito.

No cotidiano, isso aparece quando escolhemos o caminho mais fácil em vez do mais justo, quando adiamos responsabilidades por comodismo ou quando deixamos que impulsos governem nossas decisões. O remédio para esse mal é o jejum e a penitência. Ao jejuar, educamos o corpo e recordamos que ele não é senhor, mas servo. Aprendemos a ordenar os desejos e a direcioná-los para aquilo que realmente permanece.

A concupiscência dos olhos revela-se no desejo constante de possuir, de ter mais do que o necessário, de medir a própria vida pela comparação.

Em uma cultura marcada pelas redes sociais, pela exposição e pela aparência, somos facilmente tentados pela inveja, pelo consumismo e pela necessidade de construir uma “vida perfeita”. Esse mal se infiltra quando passamos a definir nosso valor pelo que exibimos. O remédio é a esmola, a caridade, a partilha concreta. Ao dar, quebramos a lógica da posse e reconhecemos que tudo é dom. A caridade purifica o olhar e nos ensina a ver o outro não como concorrente, mas como irmão.

Por fim, o orgulho da vida, que é a tentação da autossuficiência. É o desejo de bastar-se a si mesmo, de não depender de ninguém, nem mesmo de Deus.

Manifesta-se quando não pedimos ajuda, quando não aceitamos correções, quando agimos como se tudo dependesse exclusivamente da nossa força. O remédio mais profundo para esse mal é a oração. Na oração, reconhecemos que não somos deuses e que Deus é o nosso Senhor. Aprendemos a ser pequenos nas mãos Daquele que é grande. A oração nos devolve à verdade de quem somos.

Assim, jejum, esmola e oração não são práticas exteriores para impressionar os outros, mas caminhos discretos de transformação interior. A Quaresma começa com cinzas, sinal de humildade, e termina na Páscoa, na vida nova.

Se caminharmos com fidelidade, o deserto não será apenas tempo de provação, mas de configuração. O ponto de partida é a Quarta-Feira de Cinzas. O ponto de chegada é deixar que Cristo viva em nós.

Ao final desses quarenta dias, o mundo talvez não tenha visto nossos esforços, mas perceberá que algo mudou. Já não somos os mesmos, porque nos tornamos, pela graça, mais semelhantes a Jesus.