Ana Letícia do Amaral Ramos Ferreira
Pastoral da Saúde
Em meados do ano passado, deparei-me com uma postagem em rede social de alta repercussão que me chamou a atenção. Um padre ancião, aleatoriamente abordado em sua caminhada por um jovem influencer, foi questionado sobre o que mudaria nos homens caso tivesse a oportunidade de ser Deus por um dia. E eu, no meu lugar de criatura ainda a ser lapidada, achei a pergunta impertinente, arrogante, até mesmo beirando a heresia. Mas aquele servo fiel de Cristo parou e respondeu com grande amor e caridade ao rapaz: — O coração, com certeza, o coração.
Não satisfeito, o rapaz insistiu: — Por que o senhor mudaria o coração dos homens? Poderia me explicar? Com carinho e extrema humildade, o padre abriu um largo sorriso e respondeu mais uma vez: — Para que seja sempre mais apaixonado por Deus. Pois acredito que devemos viver cada momento como único, como se diz através do termo kairós. Cada momento é um momento de salvação. A vida deve ser vivida, a todo instante, como uma história de amor escrita a quatro mãos: as mãos de Deus e as minhas… e as de todos os irmãos. Porque Deus nos ama, e a única coisa que devemos fazer para amar a Deus é amarmo-nos uns aos outros.
Essas palavras simples e, ao mesmo tempo, portadoras de uma mensagem profunda bateram no meu coração e quase que instantaneamente me remeteram a São Francisco de Assis. Esse Santo foi capaz de praticar o amor ao extremo, em todos os sentidos: amando a Deus, aos semelhantes e aos diferentes, aos doentes e leprosos, marginalizados, a todas as criaturas de Deus e à natureza, de forma tão profunda, ampla, democrática, diplomática e atual.
São Francisco de Assis soube viver a sinodalidade da Igreja de Jesus Cristo. Mesmo diante dos obstáculos de sua época, não rompeu com a Igreja e com as tradições e dogmas católicos. Vivendo sua fé com obediência e como evangelho vivo, iniciou um movimento de reconstrução da Igreja e de estabelecimento de pontes entre essa e o Mundo. Ele foi o grande propulsor da retomada da história de amor de Deus e da Igreja, esposa amada do Cristo. E nessa história, Francisco quis abarcar o mundo e toda a criação como a uma grande família.
Penso que a Quaresma é, então, esse momento oportuno que Deus mais uma vez nos dá para emendarmos nossos corações, por meio do jejum, da caridade e da oração. É um novo convite que Deus nos faz para retomarmos as linhas dessa linda história de amor a quatro mãos — ou melhor, a muitas mãos. E que maravilha sermos chamados pela misericórdia divina a cada ano de nossas vidas, mesmo que não tenhamos correspondido dignamente nas outras tantas oportunidades que desperdiçamos. É o mistério da misericórdia divina que bate às nossas portas sem cessar, ano após ano, dia após dia.
Da mesma forma que fez São Francisco de Assis, cujo Jubileu de 800 anos de sua morte se comemora este ano, temos o prazer de sermos chamados incessantemente a corresponder a esse amor que viveu Francisco, homem de paz e irmão de todos.
De graça, recebemos também a dádiva de podermos nos inspirar na história de amor de Francisco por Deus — uma história tão atual e oportuna, profundamente marcada pelo desapego, pela humildade, pela fé, pela fraternidade e pelo serviço aos pobres, doentes e marginalizados.
Muitas vezes, por comodismo, falta de coragem ou mesmo de amor-próprio, pensamos que não seremos capazes de seguir o exemplo de São Francisco — quanto mais o de Jesus Cristo. Mas, pasmem, essa história de amor admite “plágio”. O amor de Deus admite tudo! E as vidas dos Santos, assim como os ensinamentos de Jesus Cristo, devem ser reescritas por nós a cada dia. Cada história de amor precisa e deve ser recontada pelos séculos dos séculos.
Está sozinho? Sem forças? Tem a sensação de estar em um deserto, esquecido por Deus? Acha que não tem o que oferecer ao próximo? Acredite, você não está esquecido e tem, sim, muito a contribuir. Que tal se juntar a outras pessoas para escrever, em conjunto, essa história de amor com Deus? A coautoria, que podemos chamar também de sinodalidade, é uma via essencial para expressarmos o nosso amor a Deus e ao próximo.
Informe-se na Secretaria Paroquial sobre as inúmeras possibilidades que temos de reforçar nossos dons e nossa espiritualidade, seja por meio da oração, do estudo dos Santos, como vivenciamos nos grupos de Adoração ao Santíssimo Sacramento, no Apostolado da Oração, na Escola de Oração de Santa Teresa, ou por meio das obras concretas de misericórdia, como aquelas praticadas pelas equipes das Pastorais da Saúde, do Quilo e das obras assistenciais à comunidade do Jardim Panorama.
Que a nossa Quaresma seja um momento de conversão sublime, para que possamos, a cada dia de nossas vidas, como peregrinos de esperança, nos tornar como o Pobrezinho de Assis. Que tenhamos coragem de sermos autores da nossa própria história de amor com Deus, instrumentos de fraternidade e caridade, verdadeiros construtores de alianças de paz e amor. Que possamos nos tornar Evangelhos vivos, a exemplo e semelhança de Jesus Cristo.


